segunda-feira, 11 de maio de 2009

nem amo tudo que tenho



"Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho"
Uma criatura sequelada, agachada à altura do pára-choque de um caminhão, num ato de desespero, ali permaneceu em involuntária meditação.
Entre aliviada e embaraçada, pontificou essa pérola da sabedoria do conformismo, deixando gravada sua anônima passagem que, entre outras tantas idéias idiótico-filosóficas vão sendo divulgadas pela eficiente rede de distribuição do conhecimento dos pára-choques, porta malas de Monza, vidros traseiros de Chevette, Brasilias e Kombis.
O tempo passa, outros constipados também. Ao ler a frase sem pensar repetem como mantra de sabedoria que ecoa para sempre.
No meio século que eu carrego aqui sozinha, se aceitasse estar longe de ter tudo que amo, melhor seria pular do bonde, para ainda poder tentar outra conexão!
Amo meus filhos, meu marido, minha mãe e minhas lembranças vividas.
Amo os meus amigos, são poucos, mas os melhores que se pode desejar.
Amo minhas musicas favoritas, tão minhas que já incorporaram minha vida como uma trilha sonora que não se dissocia do filme nunca mais.
Amo meus filmes e livros favoritos e os momentos a que me remetem.
Amo meu champanhe, minha banheira, minha cama e meus lençóis.
Também amo minha cozinha, almoço de Domingo e viagem com a família.
Amo o mar da Bahia, amo alegria e a transgressão.
Tudo isso me pertence, é muito meu.
Por certo é bem mais que eu poderia um dia enumerar ou desejar no começo da minha caminhada.

Já segunda parte da dessa "sabedoria", que obriga a amar tudo que tenho, essa me sufoca só em pensar.
Há coisas que me pertencem, ainda que eu não as deseje. Mesmo sem as querer manter, elas insistem em me acompanhar, como o chiclete colado na sola do sapato. Condenação cruel seria ter que amá-las só por não conseguir me libertar!
Definitivamente não amo todos os parentes que tenho especialmente os que se acolhe e aceita por imposição, aqueles cuja amizade nunca desejaria. Jamais os escolheria por companhia, ainda que numa ilha deserta cercada de tubarões. Mas os tenho, não há como escapar.
Não amo meus vizinhos, gente mal educada e despudorada, que incomoda, grita e late. Fuma na janela, ouve rádio alto e torce pelo flamengo aos urros nas tardes de domingo. São meus esses vizinhos, não os desejaria, mas tenho.
Sei que tenho, e não amo, meus defeitos. Pior, os reconheço cada dia mais e nada consigo fazer para que não mais me pertençam.
Não amo também minhas malas. Teimosas e voluntariosas, sempre trazem no regresso das viagens outras roupas, que não fecham como as que vão.
Não amo cabelos brancos, memória encurtada e a vista cansada que súbito depende dos óculos para tudo, cada vez mais.
Não amo meus medos, um deles me faz temer partir cedo, sem plantar todas as marcas que imagino dever deixar.
Dos medos que tenho o que mais me apavora -e tenho que possuir sem amar, é o de ter que me despedir dos meus amores e ficar. Tenho esse medo desde cedo gravado, ele é meu, mas nunca vou amar.

Um comentário:

alexandre disse...

Ler o que a gente gostaria de ter dito ou escrito é a maior identificação que poderia existir.
Parabéns pelo texto !