No carro, indo para algum compromisso, discutíamos um assunto que nos parecia muito importante e muito urgente, eu e meu marido.
Abstraímos a presença do nosso filho de três anos, sentado no banco traseiro do carro, como só os pais conseguem fazer.
Tentávamos em vão nos concentrar na discussão, já que o tagarela não se calava, falando ora sozinho, ora conosco, independente de qualquer resposta ou reação nossa:
-Tenho aquele caminhão azul, sabe? Igual ao que está ali no cartaz. Hoje tomei Toddy que tem no rótulo “Abapuru da Tarcilaba do Amaral” . Eu gosto mais dele. Mas nos quadros eu prefiro Volpi, na fase de bandeirinhas. O Biel não gosta. Do Toddy. Prefere Nescau. Eu gosto do Toddy e das embalagens. Sabe a Gorete? Ela falou ‘prá eu não sujar minha bota, mas essa é da rua, não é mãe? A bota limpinha é de ficar em casa. Eu vi o modelo novo da chuteira super zero, igual do Ronaldinho. Todo mund…
-Pára garoto! Cala a boca! Fica quieto um pouco! Você enlouquece a gente! Cada um fala de uma vez, ’ tá? Quando papai e mamãe acabarem de falar, você fala.
Dito isso, retomamos nossa conversa, sem aquela cantilena de fundo, com alguma paz. Passados poucos minutos, olhei pelo retrovisor para o banco de trás, já estranhando o silêncio, habituada coro constante. Vi o Daniel vermelho, como quem perde o ar, engasgado. Antes que eu tivesse tempo de perguntar que houve, ele disparou como quem emerge na superfície:
- Mãe, desculpa, não consigo ficar calado… é que tem muitas palavras na minha boca, e elas têm que sair…
Não houve chance de manter a autoridade. Mal deu para segurar o riso, pois a imagem era por demais clara. Enquanto ria do moleque, por dentro algo diferente me assombrou, como uma epifania; Eu também não conseguia mais fugir das histórias que estavam se avolumando na minha cabeça. Ora me tiravam o sono, ora me embalavam para dormir.
Percebi que a toda hora elas entravam, tomavam corpo e fugiam, entre uma conversa, uma viagem de taxi, uma espera num consultório, um telefonema de um amigo.
Pensei então em escrevê-las. Perdi noites e cadernos tentando dar forma e entrelaçá-las. Queria criar um fio condutor genial, que me permitisse, qual meu filho, expulsar todo aquele volume da minha cabeça.
Nunca consegui. Minha arrogância me impediu de contá-las por contar, de fazer como ele, que com a sabedoria própria das crianças, soltava as suas palavras presas sem qualquer pudor ou censura.
Muitos anos se passaram, muitas tentativas foram deflagradas, muitas desculpas arranjadas para que, em fim, a epifânia daquele momento me libertasse.
Tenho estórias para contar e elas não conseguem mais ficar represadas. Não importa se serão geniais, admiradas ou de alguma forma partilhadas. Só sei que preciso soltá-las, com a mesma liberdade, irresponsabilidade e coragem que meu filho soltava as palavras que tinha pesando dentro da boca.
Tentávamos em vão nos concentrar na discussão, já que o tagarela não se calava, falando ora sozinho, ora conosco, independente de qualquer resposta ou reação nossa:
-Tenho aquele caminhão azul, sabe? Igual ao que está ali no cartaz. Hoje tomei Toddy que tem no rótulo “Abapuru da Tarcilaba do Amaral” . Eu gosto mais dele. Mas nos quadros eu prefiro Volpi, na fase de bandeirinhas. O Biel não gosta. Do Toddy. Prefere Nescau. Eu gosto do Toddy e das embalagens. Sabe a Gorete? Ela falou ‘prá eu não sujar minha bota, mas essa é da rua, não é mãe? A bota limpinha é de ficar em casa. Eu vi o modelo novo da chuteira super zero, igual do Ronaldinho. Todo mund…
-Pára garoto! Cala a boca! Fica quieto um pouco! Você enlouquece a gente! Cada um fala de uma vez, ’ tá? Quando papai e mamãe acabarem de falar, você fala.
Dito isso, retomamos nossa conversa, sem aquela cantilena de fundo, com alguma paz. Passados poucos minutos, olhei pelo retrovisor para o banco de trás, já estranhando o silêncio, habituada coro constante. Vi o Daniel vermelho, como quem perde o ar, engasgado. Antes que eu tivesse tempo de perguntar que houve, ele disparou como quem emerge na superfície:
- Mãe, desculpa, não consigo ficar calado… é que tem muitas palavras na minha boca, e elas têm que sair…
Não houve chance de manter a autoridade. Mal deu para segurar o riso, pois a imagem era por demais clara. Enquanto ria do moleque, por dentro algo diferente me assombrou, como uma epifania; Eu também não conseguia mais fugir das histórias que estavam se avolumando na minha cabeça. Ora me tiravam o sono, ora me embalavam para dormir.
Percebi que a toda hora elas entravam, tomavam corpo e fugiam, entre uma conversa, uma viagem de taxi, uma espera num consultório, um telefonema de um amigo.
Pensei então em escrevê-las. Perdi noites e cadernos tentando dar forma e entrelaçá-las. Queria criar um fio condutor genial, que me permitisse, qual meu filho, expulsar todo aquele volume da minha cabeça.
Nunca consegui. Minha arrogância me impediu de contá-las por contar, de fazer como ele, que com a sabedoria própria das crianças, soltava as suas palavras presas sem qualquer pudor ou censura.
Muitos anos se passaram, muitas tentativas foram deflagradas, muitas desculpas arranjadas para que, em fim, a epifânia daquele momento me libertasse.
Tenho estórias para contar e elas não conseguem mais ficar represadas. Não importa se serão geniais, admiradas ou de alguma forma partilhadas. Só sei que preciso soltá-las, com a mesma liberdade, irresponsabilidade e coragem que meu filho soltava as palavras que tinha pesando dentro da boca.
Nenhum comentário:
Postar um comentário