...antes era o caos...
Devo confessar que sou das criaturas que Deus só planejou após.
Certamente já estavam ligados o sol e a lua, preenchidos os oceanos, planejadas as savanas, ordenados os dias no calendário e só então o Criador pensou em me incorporar à criação.
Sou compulsivamente metódica. Repito rituais, ainda que inúteis, por toda eternidade. Apego-me a forma original de todas as coisas e tenho imensa resistência para mudanças, ainda que se revelem para melhor. Mais que tudo, simplesmente abomino conviver com desordem. A mim parece que a movimentação física e desordenada das coisas, a falta de critério na sua colocação e a mudança constante me embaralham os pensamentos, me impedem o raciocínio e por fim me induzem a um estado de inércia, imensa insatisfação e depressão.
Vivo mergulhada no caos que a liberdade dos outros me proporciona; Todos possuem o legítimo e sagrado direito de bagunçar, mudar, empilhar, jogar, molhar, esquecer e largar.
Eu continuo prisioneira do arrumar, recolocar, desembaraçar, recolher, secar, lembrar e guardar.
Sabendo que jamais partilharei dessa alegria do caos, convivo cada dia mais próxima dele, sabendo que sua existência sempre triunfará sobre a minha, ainda assim não sou capaz de me livrar dessa maldita afinidade com a ordem do universo.
Se caos era a treva, anterior a criação, que maldição teve o Criador em mente ao espalhar tanta gente que o reverencia no planeta, para me dar nesse jogo uma mão tão rica em exemplares?
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