
Sexta-feira andando pela Praça da Paz, entre feirantes, pedintes, poças de chuva, calor e pensamentos, cruzei com um rapaz jovem, uns vinte e ... anos, apressado, carregando, entre outros pertences, uma garrafa térmica debaixo do braço, na mão um cuia de chimarrão.
Não fosse esse bizarro detalhe, eu teria cruzado com uma pessoa normal, que como tal, não teria atraído minha atenção.
Instantaneamente entendi aquela alma, pois assim como os gauchos -não falo aqui da origem geográfica do nascimento mas de uma definição que vai além-, nós os índios de origem, temos certa saudade de usos e costumes ancestrais. Eu por exemplo, vez por outra saio com meu arco e flecha, sempre por questões ligadas à tradição.
Vejo como contribuição social. Uma forma de identificar, com minha resistência, um apelo contra a cultura de massa, marcando posição da legitimidade de convivência com regionalismos ancestrais.
Pessoas preconceituosas e incultas podem olhar de forma estranha, como se estivessem me julgando pelo meu apego ao regionalismo, mas resisto.
Certa vez fui ao teatro e tentaram me impedir a entrada, só porque carregava meu arco e flecha e meu marido um lindo tacape, que está em sua família faz séculos.
Gente estranha essa. Diz-se sem preconceito, mas impede uma manifestação cultural legítima. Um direito incontestável de expressar livremente apego às origens e tradições.
Deve ser por isso que quando vi aquele rapaz, esbaforido, com garrafa, cuia, erva, e outros pertence nas mãos, senti grande ternura e identificação. Ele já deve ter sido alvo de risos, olhares carregados de preconceito por demorar a alcançar o dinheiro no bolso ao entrar num ônibus, por levar algum tempo num caixa de banco até livrar as mãos para achar as contas a pagar, por ficar abrindo e fechando garrafa, o pacote de erva mate e cuia no cinema para manter seu chimarrão no ponto exato.
Gente comum, sem raízes não entende duas coisas:
-primeiro, e mais importante: a necessidade de tomar um gole daquela coisa quente e renovada a cada minuto é vital, muito mais incontrolável, por exemplo, que o vício do fumo, banido de todos os lugares. Afinal, não fosse essa necessidade primal, o sujeito não sairia por aí como um doido carregado de equipamento.
Já viu alguém na rua carregando duas garrafas, caneca e colher, açúcar e um pacote de biscoito por ser viciado em café pingado e biscoitinhos?
-segundo, há que se exibir com orgulho em todos os lugares, especialmente nos aparentemente inconvenientes aos demais, que certas tradições existem, são parte dos que as carregam, por isso devem ser mostradas: para que possam sobreviver cada vez mais distante da origem.
Com certeza não basta tomar seu chimarrão confortavelmente refastelado no sofá. Assim como não me bastaria manter meu arco e flecha pendurados na parede. Nos dias de chuva, no caos do transito, nos cinemas, no metro, enfim, quando parece aos outros mais inconveniente e inadequado é que temos que lhes mostrar os prazeres da tradição, para que eles definitivamente fujam do ridículo das suas próprias.
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